O Ambiente

O Bioma Cerrado compreende aproximadamente 207 milhões de hectares, equivalentes a 24% do território nacional. O clima da região caracteriza-se por uma estação seca (maio a setembro) e outra chuvosa (outubro a abril). A precipitação média anual é de 1500 ± 500 mm. Períodos de seca de uma a três semanas, os veranicos, podem ocorrer durante a estação chuvosa especialmente nos meses de janeiro e fevereiro. A temperatura média annual apresenta amplitude de 21,3 a 27,2ºC.

Os solos são antigos, profundos, bem drenados, com baixa fertilidade natural e acidez acentuada. Classificam-se em Latossolos, Concrecionários, Podzólicos, Litólicos, Cambissolos, Terras Roxas, Areias Quartzosas, Lateritas Hidromórficas e Gleis. A vegetação pode ser descrita, em termos gerais, como savana entremeada de Matas Ciliares. No conjunto de paisagens, são consideradas como as mais comuns: o Campo Limpo, o Campo Sujo, o Cerrado, o Cerradão e as Matas de Galeria.

A construção de Brasília e posteriormente os incentivos governamentais, na década de 1970, permitiram que a região  iniciasse a exploração econômica baseada na agropecuária. Essa transformação teve grande influência em todas as atividades regionais, com reflexo na pesquisa e na difusão de tecnologia agropecuária.

O grande desenvolvimento agrícola do Cerrado foi impulsionado pela facilidade de remoção da vegetação nativa e por fatores positivos como temperatura, luminosidade, topografia plana e grande disponibilidade de calcário. Fatores socioeconômicos que beneficiaram esse desenvolvimento foram: preço baixo da terra, infra-estrutura, pesquisa, assistência técnica,  políticas de investimentos com juros subsidiados e de prazos longos, migração de agricultores do sul do País, afeitos à agricultura mais intensiva e ao mercado em desenvolvimento.


Geração e Incorporação de Tecnologia


Até meados dos anos 1970, o Cerrado era visto como uma região apropriada à pecuária extensiva. A partir de 1975, o governo  federal instituiu um conjunto de ações para acelerar o desenvolvimento nos Estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e no Distrito Federal. Programas de financiamento à produção foram criados, como o Polocentro (Programa de Desenvolvimento da Região Centro-Oeste) que contemplava construção de estradas, escolas, silos e armazéns, pesquisa agropecuária, assistência técnica e extensão rural, financiamentos para incorporação de novas áreas ao processo de produção e utilização de calcário e fosfato. Além de crédito para investimentos, custeio e comercialização foram estabelecidos preços mínimos e seguro  agrícola.

A pesquisa agropecuária estabeleceu como missão o desenvolvimento de tecnologia para viabilizar a ocupação do Cerrado.  Depois de realizar um amplo diagnóstico das principais limitações no seu uso agrícola, pesquisadores constataram a  existência de seis grandes problemas na região.

A informação existente sobre os recursos naturais era bastante generalizada e insuficiente para dar suporte a um programa de desenvolvimento. Em segundo lugar, as chuvas, embora, quantitativamente satisfatórias, eram mal distribuídas e com  ocorrência de veranicos durante a fase reprodutiva dos cultivos.

A baixa fertilidade dos solos era outro fator limitante. Estes apresentavam fração argila com baixa atividade química e troca de cátions, elevada saturação de alumínio e carência generalizada de cálcio, magnésio, potássio e fósforo. O quarto problema era o manejo deficiente, pois o cultivo por métodos inadequados conduziria à rápida degradação.

A incidência de pragas e doenças em áreas de monocultivo, característica predominante dos sistemas produtivos constituiu-se no quinto problema. Finalmente, havia a baixa consideração sobre as peculiaridades ambientais e suas características econômicas e sociais na ocupação humana.

Em trabalho cooperativo com outras unidades da Embrapa, empresas estaduais, institutos e universidades, a Embrapa Cerrados iniciou o trabalho com levantamentos sistemáticos dos recursos naturais em níveis macrorregional, regional e local. Estudos climáticos permitiram entender melhor a distribuição das chuvas e a probabilidade de ocorrência de veranicos. Os aspectos socioeconômicos foram analisados com base na informação existente e nos levantamentos de campo.

Na solução dos problemas relativos à baixa fertilidade, foram desenvolvidas técnicas de correção e adubação dos solos e a seleção de variedades de grãos e pastagens tolerantes ao alumínio. O uso de gesso na correção dos solos em profundidade  favoreceu o desenvolvimento de raízes em maior volume de solo, tornando as culturas mais resistentes à deficiência hídrica e melhorando o aproveitamento de nutrientes. A seleção de estirpes de rizóbio (bactérias que fixam nitrogênio do ar) em substituição à adubação nitrogenada viabilizou o plantio da soja e de outras leguminosas.

O desenvolvimento de técnicas de manejo dos solos, como o plantio direto e a utilização de implementos adequados,  contribuiu para manter as propriedades físicas dos solos, aumentando a infiltração da água e diminuindo os riscos de erosão. O controle integrado de pragas e doenças, como, por exemplo, o emprego de Baculovirus anticarsia viabilizou o  controle fitossanitário, além de evitar a poluição ambiental por pesticidas.

A geração de conhecimento, aliada a fatores políticos, técnicos e econômicos, foi complementada pela disseminação aos  produtores e possibilitou a obtenção de resultados rápidos. No cenário político, teve destaque a execução de política  agrícola bem delineada, consistente, com preços mínimos satisfatórios, crédito suficiente e oportuno, estrutura tributária e seguro agrícola compatíveis com a atividade, além de formas eficientes de comercialização e infra-estrutura básica.

Na incorporação de tecnologia ao sistema de produção, destaca-se a relação favorável entre insumo e produto. Estes devem ser economicamente viáveis para estimular a presença de empresários com capacidade gerencial e dispostos a investir  recursos financeiros no setor agrícola.

Uma análise histórica do impacto da incorporação dessas tecnologias no processo produtivo da região permite concluir que o aumento da produção foi fortemente atrelado ao crescimento da área cultivada. Essa expansão da fronteira agrícola ocorreu, em grande parte, por fatores políticos, como o crédito diferenciado para a região. Essas vantagens deixaram de existir e hoje o aumento na oferta de grãos pode ser obtido, com custos menores e prazos mais longos, por ganhos em rendimento.

O esforço integrado da pesquisa, da assistência técnica e do crédito para ocupar e utilizar os recursos do Cerrado, promovendo seu desenvolvimento, deve estar voltado não para o enfoque de um produto isolado, mas para o planejamento e a administração do negócio agrícola como um todo. Esse esforço deve contemplar, ainda, a conservação dos fatores produtivos, os efeitos residuais da aplicação de corretivos, de fertilizantes e de defensivos no manejo de espécies e no controle de pragas, respeitando a aptidão da propriedade, incentivando a diversificação de atividades.